O Tribal e suas formas ocidentais

Por Francine Oliveira Publicado em 28 de dezembro de 2013

A tatuagem tribal da forma como a conhecemos hoje é um resultado de inúmeras adaptações e misturas visando à reprodução de imagens encontradas nos corpos de membros de tribos de várias partes do mundo, que praticam rituais diversos os quais envolvem, frequentemente, a realização de marcas pelo corpo. Cada uma das culturas tem seus desenhos que guardam significados específicos, bem como técnicas diferenciadas para aplicar esses desenhos, apesar das semelhanças que podemos reconhecer sem que uma tribo tenha qualquer conexão com a outra.


Talvez os estilos mais populares de tatuagem tribal sejam aqueles vistos nas ilhas polinésias e do sudeste asiático, atualmente incorporados à tatuagem ocidental moderna. Apesar de muitos ainda procurarem pelos significados “originais” das imagens desenvolvidas pelas tribos, é frequente também a escolha das tattoos abstratas, por motivos estéticos e, às vezes, como no caso dos kanjis, acontece de um desenho estar disposto no catálogo associado a um significado equivocado ou simplesmente inventado ou, ainda, de nem tatuador nem tatuado saberem do que se trata.




Um bom exemplo de imagem que se popularizou e continua a ser reproduzida indiscriminadamente é a flor de Borneo ou roseta (uma representação da flor de berinjela), a primeira tatuagem a ser recebida pelos homens nativos da tribo Dayak, marcando a passagem do garoto para a idade adulta e protegendo-o em suas jornadas posteriores. Essas rosetas, chamadas Bunga Terung, devem ser tatuadas em pares, podendo ser feitas também após longas viagens ou acontecimentos importantes – contudo, são um desenho exclusivamente masculino entre os dayak. O espiral ao centro da flor, chamado Tali Nyawa, representa o ciclo da vida. As tatuagens feitas após a roseta são uma espécie de diário no corpo, para marcar jornadas físicas e espirituais e, antes de fazê-las, o tatuador deve consultar os espíritos ancestrais para desenvolver o desenho.


A roseta, feita em pares, é um desenho tradicionalmente masculino.


Outra confusão recorrente envolve as tatuagens maoris, dos nativos da Nova Zelândia. Muitos já ouviram falar na denominação ta moko, usada para designar um estilo específico da tatuagem tradicional neozelandesa e uma das questões que até hoje enfurecem os descendentes diretos: apenas um maori pode ter uma ta moko, desde que feita por outro maori. A tatuagem maori feita comercialmente, por quem não tem ligações de sangue com os maori é chamada kirituhi, que significa “pele tatuada”. Mesmo que o tatuador tenha estudado a fundo a cultura maori e reproduza fielmente um desenho do segmento ta moko, com todos os significados associados, a tatuagem só será considerada como ta moko se feita no contexto da descendência direta; dessa forma, alguém que não partilhe do sangue nativo só pode ostentar uma kirituhi.



Num esforço para resgatar suas tradições, muitos descendentes dos maori decidem se tatuar conforme o antigo costume, que já esteve à beira da extinção. Apesar do estigma em relação às tatuagens no rosto entre jovens, um número cada vez maior deles vêm aderindo à prática, a fim de homenagear suas raízes.


Quando nos referimos à tatuagem polinésia, generalizamos uma ampla gama de artes tribais. É importante ter em mente que as ilhas da Polinésia compreendem territórios de diversos países, e ali estão localizados o Havaí, Samoa (pertencentes aos E.U.A.), a própria Nova Zelândia, à qual pertencem também as Ilhas Cook, o Taiti (pertencente à França) etc.


Cada um desses territórios abrigam tribos variadas, cada qual com suas tradições específicas, de forma que a prática da tatuagem também varia de tribo para tribo que a tenha adotado como ritual.


A famosa tatuagem que cobre um lado do peito e o braço do ator e lutador Dwayne Johnson, também conhecido como “The Rock”, por exemplo, é baseada na cultura samoana e foi elaborada por um tatuador havaiano. Nela, estão representados diversos elementos relativos às origens de Dwayne, que se resumem à sua família, à proteção e à espiritualidade.




Os desenhos baseados nas culturas tribais europeias também são bastante populares, principalmente aqueles influenciados pela intrincada arte celta, como é o caso do triskele, o espiral triplo presente em inúmeras representações por todo o continente, datando de uma era pré-céltica, e que pode se referir a uma série de tríades que estejam relacionadas entre si (por exemplo, a vida, a morte e o renascimento), ou da triquetra ou nó da trindade e suas apropriações, referentes a variados formatos de três ângulos e presente em representações rúnicas e nas mitologias nórdica e germânica. Por causa da semelhança entre os nomes, não é raro que alguns achem que o triskele (também chamado de tríscele, triskelion ou triskle) é a mesma coisa que a triquetra (ou triqueta), que acabou também sincronizada pelo cristianismo.




Uma variação do triskle.


A triqueta enlaçada por um círculo é uma apropriação cristã que simboliza a Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo.


A difusão do estilo tribal moderno se deve, ainda, à “maleabilidade” de criação, uma vez que, para representar qualquer elemento, a fidelidade ou o realismo não são elementos necessários, e o desenhista pode exercer certa liberdade criativa, quando o cliente não busca se prender às tradições.
Recentemente, alguns estudiosos têm preferido usar o termo “neotribal”, para diferenciar a tatuagem moderna daquela feita propriamente pelas tribos. Como há uma ampla gama de estilos e de releituras, para quem deseja fazer uma tatuagem associada a um significado qualquer, como sempre, recomendamos a pesquisa em mais de uma fonte, para nos certificarmos de que dispomos das informações corretas. Podemos também optar por desenhos criados para nós, mesmo que tenhamos os estilos tribais nativos como referência, de forma a nos possibilitar a impressão, em nosso corpo, de nossa própria história, como nossos significados, sem corrermos o risco de, ao tentar imitar ou reproduzir um elemento de outras culturas, passarmos a carregar algo que não tenha sentido ou que não saibamos explicar.


Para saber mais:

 


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