Mundurucús e a tradição perdida da tatuagem

Por Francine Oliveira Publicado em 24 de outubro de 2013

A tribo Mundurucú já foi temida como o mais poderoso grupo de caçadores de cabeça de toda a Amazônia e, provavelmente, foi também o grupo mais tatuado. Atualmente, a tatuagem foi completamente substituída pela pintura corporal, uma vez que a prática de marcar o corpo permanentemente foi extinta na década de 1940.



Pela tradição, as tatuagens começavam a ser feitas aos seis ou sete anos de idade e o término se daria em torno de 10 anos depois, quando a criança já tivesse se tornado adulta, ostentando as marcas que indicavam seu desenvolvimento completo.


Tanto homens quanto mulheres possuíam tatuagens de finas linhas que cobriam o tronco, os membros e parte do rosto.


Tatuadores mundurucú poderiam ser do sexo feminino ou masculino. Para fazer o desenho, eram usados "pentes" feitos com espinhos de palmeira e, depois de perfurada a pele, suco da fruta de jenipapo era esfregado nas feridas para dar a pigmentação escura. O jenipapo também servia - e serve, até hoje - para as pinturas corporais, que complementavam os desenhos das tatuagens.



A cultura dos mundurucú é centrada no homem, havendo uma ênfase particular na separação dos sexos. Na maior parte do tempo, os homens evitam o contato com as mulheres, vivendo inclusive separados de suas esposas, irmãs e mães, numa casa tradicional apenas para os indivíduos do sexo masculino, chamada eksa. Nessa casa, os homens comiam, dormiam e confeccionavam suas ferramentas para a caça. O local também abrigava três flautas sagradas, as karökö, que só poderiam ser tocadas e manuseadas por homens, acreditando que os objetos incorporavam espíritos ancestrais responsáveis pela proteção e influência positiva no bem estar da vila.


Existe um mito sobre tempos passados em que as mulheres dominavam a cultura mundurucú, detendo o poder que agora é masculino. Por medo de as mulheres voltarem a dominar é que os homens negam a elas o acesso à casa eksa e às flautas.


Os troféus de guerra - cabeças decepadas de inimigos - também ficavam guardados na eksa, onde se conduzia, além disso, o ritual da tatuagem, obviamente, pelos homens.



A origem da tatuagem, de acordo com os mitos mundurucú, é atribuída ao deus criador e herói Karusakaibo, detentor de poderes extraordinários e responsável pela criação das pessoas e dos animais. Ele também dotou os mundurucú com habilidades para a agricultura e para outras práticas, como a caça de cabeças e a possibilidade de construir a casa dos homens.


Karusakaibo fez com que os homens se tornassem, como ele, grandes caçadores, autossuficientes e independentes. Ele também vivia isolado das mulheres, na selva, impondo, assim, um modelo de vida que os homens deveriam seguir.



Fisicamente, ele também moldou os mundurucú a sua semelhança, tatuando-os para que se parecessem com Karusakaibo após emergirem do subsolo para habitarem a terra. Em muitos de seus atos de criação, Karusakaibo empregou fragmentos de pássaros, como penas e ossos, para tornar sua mágica possível, ou transformou a si e a outros heróis míticos em pássaros de espécies diversas, para que pudessem cumprir tarefas.


É interessante observar como, nas tatuagens dos mundurucú, os padrões se ligam de forma a lembrar as penas das aves. A tribo também é reconhecida pela produção de belos e intrincados enfeites feitos de penas.


Trofeús, penas e tatuagens conferiam ao guerreiro mundurucú a força espiritual dos inimigos abatidos, dos animais (bem como sua beleza) e de seus heróis míticos. O propósito não era apenas o de decoração pessoal e vaidade, mas também o de oferecer poderes mágicos tanto aos indivíduos como à comunidade.













Fontes: Vanishing Tattoo; Povos indígenas no Brasil


Avalie este post

Dê uma nota de 1 a 5 estrelas

Comentários

Faça um comentário sobre este post